Livro - Jim Morrison: o poeta-xamã

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O dia em que conheci Jim Morrison

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segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Seria the Doors uma banda trágica?



Em 1965, alguns rapazes, estudantes de Cinema, juntaram-se para montar uma banda. Surgia assim The Doors, uma das bandas mais cultuadas do século XX. Em parte, pelo talento e pela erudição de seus membros, e em parte pelo carisma e pelo magnetismo de seu líder. Os integrantes da banda  eram  adeptos da psicodelia (palavra formada por dois radicais gregos: psiké, que significa alma, e delos, que significa manifestação). A psicodelia diz respeito a perceber aquilo que não se consegue perceber comumente.
O nome da banda vem de Blake. William Blake era vidente, tinha visões com anjos e demônios e dizia prever o futuro; ele via mais que os outros. É muito interessante pensar Blake como in­fluência de Morrison, uma vez que ele pensa uma dinâmica muito parecida com a de Nietzsche para vislumbrar a verdade, a essência do mundo, mesmo que não use os mesmos termos: "Sem contrários não há evolução. Atração e Repulsão, Razão e Energia, Amor e Ódio são necessários à existência Humana. Destes contrários nasce aquilo que o religioso denomina Bem & Mal. O Bem é o ativo que obedece a Razão. O Mal é o ativo que surge da Energia. Bem é Céu. Mal é Inferno". Para Blake, a "verdade" se organiza para o homem em uma tensão dos contrários, assim como para Nietzsche. O bem é necessário como algo que garante uma organização e emerge da razão, e o mal, como uma força incontrolável que emerge da própria natureza humana. Mais à frente no mesmo poema, Blake identi­ficará o mal com o corpo e o bem com a alma, assim como Nietzsche identifica o apolíneo com o indivíduo e o dionisíaco com o coletivo, ou o apolíneo com o sonho e o dionisíaco com a embriaguez; uma força que organiza e outra que irrompe. A vida é trágica. Nem apolínea nem dionisíaca, mas um equilíbrio entre essas forças; ou usando os termos de Blake, o homem não é nem bom nem mau, mas as duas coisas. O papel da Arte é tornar isso possível, ou seja, ver o mal, o terri­ficante sem que isso esmague o homem. Parafraseando Nietzsche, a Arte existe para que a vida se torne suportável. Tornar aquilo que é belo sublime ou, fazendo valer a frase de Blake uma vez mais, "se as portas da percepção se desvelassem, cada coisa apareceria ao homem como é, in­finita." (ou trágica), ou seja, cada coisa nos apareceria de um modo como não podemos dar conta, ou nos daríamos conta de que cada coisa que há não é a própria coisa, mas um recorte, uma perspectiva possível.
A VIDA NÃO É NEM APOLÍNEA NEM DIONISÍACA, MAS UM EQUILÍBRIO ENTRE ESSAS FORÇAS; USANDO OS TERMOS DE BLAKE, O HOMEM NÃO É NEM BOM NEM MAU, MAS AS DUAS COISAS.
Pensar a banda ‑ e Doors como tendo um projeto de expandir a percepção de mundo a partir da música é um exercício reforçado ao se falar sobre o processo criativo da banda. Os relatos dos membros da banda falam de um processo caótico feito a partir da letra de Jim Morrison, que é originalmente poeta, e não músico. Se as letras em sua maioria eram de autoria de Jim, as melodias eram criações coletivas que modificavam o modo como a música era organizada; o importante era a música, e não cada um dos integrantes da banda. Nesse sentido, o processo de expansão da percepção pode ser associado a um processo dionisíaco de embriaguez e destruição individual. A partir do momento em que os indivíduos levam suas contribuições e as somam, criam algo que é diverso da soma das contribuições musicais. Outro aspecto da banda eram os improvisos, que ocorriam em gravações, shows ou durante a criação, incorporados ao corpo da música sem pestanejar. Novamente, contribuições individuais engolidas pelo todo, pela banda, pela música, que é por si só dionisíaca, pois é informe. Identi­fica-se, assim, um processo de criação da banda em que todos dão suas contribuições, as quais se desmancham na música.
Mas Dionísio necessita de máscaras para ser visto, e essa máscara é a imagem da banda de Rock'n'roll. Jovens, bonitos e charmosos: sem isso a música dionisíaca criada pelo grupo não apareceria, pois não teria corpo. E a banda ganhou corpo e rosto, uma encarnação: Jim Morrison.
JIM MORRISON: HERÓI?

Ser um astro de rock é um movimento em direção ao apolíneo, ao ser individual, é aquilo que há de mais próximo a um herói. Jim é um receptáculo para a verve dionisíaca da banda, seu ímpeto. Jim é a máscara apolínea que permite que a música se manifeste por meio dele. Se a música da banda é dionisíaca, Jim Morrison é a máscara apolínea que o ator trágico deve vestir para encarnar o herói. A relação entre a música e Jim Morrison procura conciliar o dionisíaco presente na poesia com o apolíneo exigido pelo show business. Jim Morrison não sabia tocar instrumento algum, então, para conseguir fazer música, ele necessitava dos outros membros da banda, principalmente de Ray Manzarek, o principal interlocutor de entre Jim e os outros integrantes dos Doors. Dentro da banda, Jim representava a força dionisíaca, enquanto os outros, a apolínea; se Jim trazia letras sem melodia, ou com uma melodia "capenga", os outros a organizavam e a tornavam música. Existia uma dinâmica Apolo-Dionísio no processo criativo da banda que se invertia no momento de apresentarem-se. Durante a criação, Jim era o Dionísio, que trazia uma torrente de força e vigor, e Ray, John e Krieger eram o Apolo, que dá forma ao que foi trazido, que transforma aquilo em algo possível de ser apresentado. Durante as apresentações, Jim era a máscara de Apolo que aparecia em primeiro plano, ao passo que os outros músicos pouco eram percebidos. Em qualquer gravação de apresentações da banda, todos os outros músicos eram esquecidos e a câmera só "lembrava" de Jim Morrison. Naquele momento,  e Doors era, enfim, uma banda trágica, na qual Apolo e Dionísio se fundiam em apenas um. Como foi declarado por Henry Rollins (1961), músico, autor e fã da banda: "O que me impressionou logo no começo foi a voz de Jim Morrison, o controle, a riqueza e como ele passava daquele controle e ternura para a ferocidade animalesca que ele tinha".

Morrison usava seu próprio rosto como máscara, porém criava outras máscaras como a de King Lizard ou a de Mr. Mojo Risin. O Rei Lagarto é um alter ego de Jim, a sua outra máscara. Jim escolhera essa imagem porque ela representava o que há de mais primevo dentro do homem. Mr. Mojo Risin, um anagrama de Jim Morrison, aparece na gravação de L.A. Woman, um momento de pura improvisação e espontaneidade. O que ele quis dizer exatamente? Não importa.
Sem a banda, Jim Morrison jamais poderia ter feito seu ímpeto dionisíaco tomar forma, e, sem Jim Morrison, os  e Doors jamais teriam sido aquilo que foram. Um dos grandes temas da banda é a morte, uma morte que reúne, que compatibiliza o homem com sua natureza. Uma morte dionisíaca garante a impermanência da existência, enquanto a vida apolínea deseja sua eternização. Exemplo interessante aparece nesse trecho de Light my Fire: "­ e time to hesitate is through/No time to wallow in the mire/Try now we can only lose/And our love become a funeral pyre/Come on baby, light my /Come on baby, light my /Try to set the night on ‑ re, yeah". Sobre esses versos, Rob Krieger diz: "Jim escreveu o segundo verso sobre a pira funerária. E eu disse: Jim porque insiste em falar da morte? E ele disse: não cara, é perfeito. Tem a parte do amor e, depois, a parte da morte. E ele tinha razão". ­ e end é outra música emblemática que, em seus versos, dá conta de uma visão terrificante sobre a morte: "­ This is the end/Beautiful friend/­ is is the end/My only friend, the end/Of our elaborate plans, the end/Of everything that stands, the end/ No safety or surprise, the end/I'll never look into your eyes again/Can you picture what will be/So limitless and free/ Desperately in need of some stranger's hand/In a desperate land?". Meu único amigo, o fim lembra perfeitamente a sentença de Sileno, servo de Dionísio, dada ao Rei Midas. Quando este pergunta a Sileno qual das coisas era a melhor e mais preferível ao homem, recebe como resposta: não existir, mas, agora que existe, morrer o quanto antes. É o destino de todos. Essa verdade terrível atormenta o homem e é na luta contra esse 'fim' que a tragédia se estrutura. A vida eterna apolínea e a desintegração dionisíaca. "Father?", "yes, son", "I want to kill you/Mother I want to fuck you". Se existia alguma dúvida sobre se havia tragédia em Jim, ele convida Édipo a esclarecer.
Este é o fim
Belo amigo
Este é o fim
Meu único amigo, o fim
Dos nossos elaborados planos, o fim
De tudo que resta, o fim
Sem salvação ou surpresa, o fim
Eu nunca olharei em seus olhos de novo
Você pode imaginar o que será?
Tão sem limites e livre
Desesperadamente precisando de alguma mão estranha


ARISTÓTELES. A poética clássica. São Paulo: Pensamento-Cultrix, 2005.

BLAKE, W. O casamento do céu e do inferno. São Paulo: L&PM, 2007.

EURÍPEDES. As bacantes. São Paulo: Hedra: 2010.

MACHADO, R. O nascimento do trágico de Schiller a Nietzsche. Rio de Janeiro: Zahar, 2006.

NIETZSCHE, F. A origem da tragédia. São Paulo: Centauro, 2004.
____________. A visão dionisíaca do mundo. São Paulo: Martins Fontes, 2010.



Marcus Vinícius Monteiro Pedroza Machado - Formado em Filosofia pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e professor.


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