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domingo, 7 de dezembro de 2008

OS POETAS/XAMÃS - A FRONTEIRA ENTRE A LOUCURA, O ABISMO E O MÁGICO


É fácil catalogar alguém. Desde o primeiro momento, a primeira impressão diz (quase) tudo sobre determinada pessoa. É, repito, muito fácil. E é também fácil e rotineiro, para um psicanalista, rotular e medicar (ou drogar?) o seu “paciente”. Mas, é obrigatório fazer os TPC. Sobretudo, no que diz respeito aos artistas. Nunca foi tão fácil indicar o caminho dos hospitais psiquiátricos a uma pessoa “complexa” ou “estranha”. E os artistas têm deixado que se instale na mente dos “médicos” a versão- loucura, em detrimento da versão- visão. Na História da Arte moderna existem casos que desafiam a tese de “distúrbios graves e por toda a vida”, com que apressados analistas da mente rotulam esses artistas.

Citando Antoni Tàpies: “Todo o artistas genial tem tido e continua a ter relação com o “mágico” e o “religioso”, e não é raro que, por isto, tenha sido às vezes comparado ao santo, ao profeta, ou ao feiticeiro da tribo. O aprofundar da realidade requer um estado de “angústia psíquica”, de tensão espiritual, que é verdadeiramente comparável à daqueles.”


Não é fácil separar a loucura da genialidade. Não é fácil deixar a inveja artística de lado, e encarar de frente um artista de génio. E, no entanto, como seria simples dar o valor intelectual devido a um indivíduo que “arrisca a sua vida” (no dizer de Van Gogh), para encontrar “pérolas”, trabalho esse que lhe é destinado desde a nascença: a sua intuição, a sua vocação.


Entremos então no “jogo a sério”, e deixemos o “jogo a feijões”: comecemos pelos casos “clássicos”:


- Van Gogh (Antonin Artaud chamou-o de “Suicidado da Sociedade”; este pintor dizia que o doutor Gachet era mais paciente e vítima do que ele próprio…)


- Joseph Beuys

- Jim Morrison

- Joan Miró

- Antoni Tàpies

- Pablo Picasso.


O que têm todos estes grandes artistas em comum?

- Duas coisas:
. Sofreram fases de “doença mental”/ depressões gravíssimas.

. São xamãs


Todos eles passaram por ritos de iniciação, todos eles atravessaram psicologicamente áreas espirituais subjectivas, que exprimem energias interiores de grande sensibilidade e força.


Para Piers Vitebsky, apenas a sociedade escolhe quem será herói e quem será louco (!), de entre um conjunto de artistas/ visionários: “Os xamãs são “loucos” por cortesia da cultura e nos termos dessa mesma cultura. Em último caso, é a sociedade que distingue entre o comportamento do xamã e do esquizofrénico ou do psicótico. Um transforma-se em herói e o outro em paciente de um hospital. O xamã vive à beira de um abismo, mas tem forma de evitar cair nele.”


É preciso, então, entender os sinais. Todo o trabalho mental do xamã é metafórico/ simbólico: foi-o quando Beuys tentou curar a América (instalação com um coiote: “A América ama-me e eu amo a América”), foi-o quando Picasso respondeu a um soldado alemão que eram eles que tinham criado Guernica, e não ele próprio; foi-o quando Jim Morrison se deixou influenciar pelo espírito de um índio morto na estrada; foi-o quando Miró pintou O Carnaval de harlequin com a “inspiração da fome”; e, finalmente, caracteriza a arte do artista “mais abstracto dos abstractos” Antoni Tàpies: muros, portas, escadas, caminhos, símbolos, etc.


Vitebsky, no seu livro O Xamã, é taxativo, na destrinça entre artistas geniais (considerados esquizofrénicos) e os xamãs: existem causas, provocam efeitos (parecidos mas ao mesmo tempo muito diferentes): “O paralelo mais próximo para a loucura do xamã será talvez o estado clinicamente designado por esquizofrenia. (…) Todavia, as diferenças são bastante grandes, tanto psicológica como socialmente. Enquanto a atenção do xamã aumenta, a do esquizofrénico encontra-se difusa; enquanto o xamã mantém um controlo de longo alcance sobre o seu próprio estado de espírito, a esquizofrenia determina a perda deste controlo; e, enquanto a experiência do xamã é sempre trazida de volta à sociedade e partilhada para benefício dela, o esquizofrénico está retido no interior da sua experiência privada, quase no ponto do autismo.”


Repito: todo o trabalho mental do xamã é simbólico: é feito de metáforas – como os sonhos. E actua na sociedade. Citando de novo Vitebsky: “Qualquer que seja o modo como as pessoas de fora considerem o estado mental do xamã, as sociedades xamânicas vêem uma continuidade entre este estado e o do paciente e da sociedade, considerados como um todo.(…) Em vez de procurarmos uma instituição designada como xamanismo, a nossa atenção deve centrar-se na figura do xamã. O xamã liga entre si áreas como a religião, a psicologia, a medicina e a teologia, que, na literatura ocidental, se encontram separadas. Através das suas experiências individuais, os meios do xamã são psicológicos, mas os fins são sociológicos, para sarar e manter a comunidade.”


Enquanto Freud dormia… instalou-se a moda da esquizofrenia: é fácil, é barato, vai-se ao livro das doenças e dos medicamentos, receita-se alguma coisa para o paciente dormir muito, e ataca-se o efeito, não a causa. Enquanto sociólogo (o que sou), não posso mais calar a minha revolta pela hipocrisia das “sociedades modernas”, que rotulam todos os “aspectos negativos” de um indivíduo como “doenças do nosso tempo”.


É que… só são doenças porque a sociedade diz que são…

Francisco Capelo é sociologo, escritor, pintor, poeta, autor de vários livros.
http://www.franciscocapelo.com/




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