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O dia em que conheci Jim Morrison

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segunda-feira, 18 de outubro de 2010

JIM MORRISON: RITUAL E A FORÇA DO MITO







Jim Morrison: símbolo mítico e ritual. Sem dúvida, Jim Morrison foi um dos símbolos mais significativos dos anos sessenta e setenta, não só no domínio da música, do rock, mas é uma das figuras mais emblemáticas no desenvolvimento da revolução sexual. Podemos confirmar que a sua validade ainda hoje existe e se expressa de diferentes maneiras.

Jim Morrison figura entre os fãs ao redor do mundo, que interagem constantemente no mundo virtual da internet, trocando idéias, avaliações e percepções dos fundamentados idílicos ou como narrações que levam à contínua construção da lenda, do mito, do Rei Lagarto.

Além disso, em termos etnográficos, sob a premissa de que símbolo remete ao mito e, portanto, o rito (Melichar 1996:89), foram obtidos dados de campo no cemitério Père Lachaise para assinalar o aniversário da morte de Morrison, em 03 de julho de 2001, registrando aspectos tanto da parafernália cerimonial e associado com o ritual como motivações e interesses daqueles que foram ao túmulo do herói nessa ocasião.

A hipótese sobre as ações dos fãs de Jim estão no túmulo onde os seus restos mortais se encontram, eles são feitos rituais que são realizados em uma base cíclica, além de Lizard King sobre a construção de uma série de narrativas que se constituem como versões diferentes de um mito. Por mito se entende aquilo que se opera no discurso meta-histórico no qual sinais tornam-se portadores de significados simbólicos. Os eventos reais ou personagens como símbolo (Navarrete, 1999: 245). Em outras palavras, "O mito tem sua língua e aparece na forma narrativa com arguição, tem estilo. Muitas vezes, porém, a beleza tem um história cultural, e a distribuição cultural é contraditória da instituição cultural e como tal, tem funções e significações psicológicas social e religiosa. "(De Waal 1975:209 - 210). O sentido do mito como representação da unidade imaginária e identidade, as influências das práticas sociais dos fãs do Lizard King, fornecendo uma imagem e um sentimento da unidade, independentemente da idade, nacionalidade e posição ou status (cf. Shantz 2000), que reflete não só no engajar e interação diária, mas também através da sua participação em rituais, como ocorre anualmente em Père Lachaise, ou nos encontros de Saraus, livrarias, comunidades na internet, etc.

De acordo com o exposto, e como parte da hipótese acima referida, “qualquer evento, pessoa ou lugar pode ser investido com significado simbólico no discurso histórico e assim, adquirir o estatuto mítico"(Navarrete 1999:244), portanto, consideramos que os fãs e as fãs de Jim Morrison, foram construindo um mito em torno da figura do cantor, desde os tipos de narrativas posições que eles próprios, independente de terem plasmado em seus imaginários como fantasiosas ou reais, constroem uma história em que Morrison surge como herói, semideus ou um deus. Desde pelo menos que a palavra "herói" nos remete, Jim faz parte do "vocabulário da mitologia (e, portanto, mesmo da antropologia religiosa”, mas também de vocação moral ou política, ou... Teatro e muito mais, dentro da esfera ampla da literatura ..."(Augé, 1993:177). Isto é, o mito Lizard King oferece aos seus seguidores um mundo vivo, articulado e carregado de amplos signos e valores significativos.
Em cada mito fala-se de personagens com qualidades especiais, ou sobrenaturalmente, cujas ações comuns com o mundo cotidiano "não pode ser de um herói e, portanto, contribui para dar sentido ao cosmos como uma estrutura social, referindo-se aos valores arcanos dá sentido à ordem ou ao caos e que são decretados ritualmente (cf. Eliade, 1983).

Com base nesses parâmetros, propõem um mito baseado no canônico datado de uma série de manifestações de fãs, onde cada um, mesmo obedecendo a um sentido pessoal e diferente, cada qual encontra os denominadores comuns a seguir, o que faz mover energias internas, psíquicas, as quais dão sentidos e direção.

Primeiro, os atributos físicos do personagem, beleza andrógino - qualificado mesmo como apolíneo -, faz com que eles se sentissem atraídos para essas qualidades. Ele atraiu para essa combinação arquetípica, esses parâmetros estéticos e visuais, sob a batuta acústica, rítmica das composições líricas controversas para a época. Além disso, nas sua aparições em público, sua conduta foi proposta contra a ordem estabelecida e provocou o caos promovido tanto entre os que assistiram shows dos Doors, como entre os que mantinham a segurança local, ou seja, a policia. Morrison provocava as massas com as declarações contrarias a ordem estabelecida, mas muitas vezes incluía seus próprios seguidores. Por outro lado, várias declarações sobre o seu conceito de liberdade, Morrison encorajava as pessoas a quebrarem as grades da prisão que cada ser humano constrói, que as faz sentirem-se incapazes de enfrentar seus medos mais profundos, como medo da sexualidade e do erotismo, abrir a mente para novas experiências, a proximidade da morte, o finito, a vida.

Estes são os princípios que fizeram da vida de Morrison uma figura importante, um herói em plena efervescência ante um mundo que parecia largar a própria pele, enquanto o Rei Lagarto propunha a metamorfose das velhas formas engessadas, cristalizadas e, portanto, "guia" do labirinto. Após sua morte, as mensagens polissêmicas que Jim deixou continuam seu percurso histórico, sempre emitido, tanto por suas ações e significados, contribuições para a sua validade e confere atribuições extraordinárias, em alguns casos podem ser classificados como místicas.

A história da vida de Jim Morrison é inerentemente complexa em muitos aspectos, o que muitas vezes torna difícil de entender em detalhes, inclusive com referência à sua morte. Sua vida foi cheia de acontecimentos importantes para todos envolvidos nos levantes dos anos 60. E ainda dá sentido e relevância
para fornecer pontos de referência de um discurso contra as normas estabelecidas, na busca da liberdade.

Jim, como um bode expiatório para os loucos anos da contracultura, desempenhou o papel de desintegrar a ordem social através da promoção da crise sacrificial a ocorrer; ou seja, é transformado em Morrison responsável pelo caos e, portanto, torna-se um Salvador. Por causa de sua morte, voltou à ordem, o bode expiatório é odiado e ao mesmo tempo, o objeto de veneração (cf.Melich 1996).


Ele, em sentido mítico, representa a sua morte(e dos fãs, se assim o seguem) mas que é devolvida no fim, tal como rege o evangelho. Não preservar a vida: “ perder a vida para ganhá-la. Assim o bode expiatório é odiado e ao mesmo tempo, o objeto de veneração (cf.Melichar 1996:155).

A morte dá lugar à imagem e é mantida viva no padrão das substituições, transformando e promovendo-a em efígie, junta-se ao panteão das religiões, o caráter, o modelo, que dá significado e que será atribuído e concebido como um herói, moldado em imagem, configura-se e é endeusado e se tornou símbolo (Augé2001:32).

Com a morte do homem-deus começa a construção mito, da lenda, perpetuado e modificado dinamicamente através do tempo, e cuja função é servir como uma referência para dar uma ordem ontológica e existencial, aderir à figura de culto através de caminhos que são expressos no ritual (Eliade 1983:149-150).

O mito constitui-se como uma sanção, a carta fundacional da ação ritual (Díaz Cruz 1998:246). O rito se caracteriza por ser um ato simbólico que consta de um espaço cênico, espaço constituído por um palco, uma estrutura temporal, atores envolvidos na ação simbólica, organização de eficácia simbólica (Melichar,1996:90), então, “o ritual é a quintessência do costume, hábitos, pois representa a destilação e condensação de muitos costumes seculares e regularidades naturais comuns a todos" (Turner 1980: 55).

No cemitério de Père Lachaise a tumba do rei lagarto constitui-se uma área, um local sagrado, que é praticamente desprovida de símbolos, que carece de elementos icônicos especiais, exceto a placa de bronze colocada em 1991, com uma inscrição em grego antigo*, cujo significado escapa aos fãs que se reúnem lá. Consequentemente, as manifestações de culto envolve a tentativa de "construir" mediante elementos de materiais, um espaço especial. Então, coloque-se a parafernália pesada utilizada no ritual, que é uma série de representações icônicas do uso de espaço que continuamente resacralizam os que chegam ao local e são participantes de uma religião secular que se expressa, ademais, por não ser formalizada, além de ser mais discursivamente em graffiti e que, dialeticamente, é formalizada pela ação reiterativa, repetitiva, estruturadas pelos fiéis a Morrison que, desta maneira, estabelecem uma conexão com o deus-homem, com seu espírito e com a sociedade. Essas atividades, aparentemente públicas, tem sentido e significado dependendo do contexto e das atividades previas ai desempenhadas e de seu significado preestabelecido, baseando-se em signos codificados e cujos significados são descodificados.

O ritual é simbólico, procura e ajuda a construir conexões com o ambiente além do mundo físico e consciente (Gazin-Schwartz 2001:268). O ritual acontece em um local concebido para esse fim, onde se situam os restos do personagem icônico; materiais especiais simbólicos são comumente usados para relacionar à vida e os hábitos de Jim, que os dota de sentido especial e sagrado, aqueles que se reúnem para celebrar o ritual e realizar movimentos estilizados ou regulares, incluindo a quase obrigatoriedade tirar fotos que perpetuam o momento da visita ao local e participação nos rituais, além de proferir palavras para recordar o Rei Lagarto, incluindo cantarolar suas canções ou “recitar" seus poemas. No entanto, uma parte coloca sobre o tumulo diversos escritos, nem sempre visíveis aos olhos de outros, como exclusivos mistérios ocultos. No ritual cria-se ou recria-se uma relação especial entre os seres vivos e o homem-deus, entre o mundo e o submundo, as relações que podem ser um reflexo do cotidiano ou o inverso.


As práticas rituais são formas para que os indivíduos organizem a ambiguidade na vida social e nas relações com o mundo natural; O ritual foi projetado para criar um senso de comunidade entre os participantes, é um mecanismo que fortalece laços de solidariedade e que contribui para a construção de elementos de identidade (cf. Turner, 1988). O ritual faz parte da série de comportamentos que compõem a cosmovisão de seus participantes (Gazin, Schwartz 2001:268). As mesmas práticas discursivas manifestadas diariamente por meio de mensagens dos adeptos da internet a Morrison são, em grande medida, práticas de natureza ritual que reforçam as estruturas cotidianas normais e comuns entre os indivíduos que navegam na internet, dialogando sobre deus-homem em busca de uma comunhão dentro de um campo simbólico e espiritual; a comunicação virtual contribui, paralelamente, a construção e ao dinamismo do mito e suas muitas versões no âmbito do simbolismo do rito.

A atividade ritual visa estabilizar as relações entre homens e combina a constituição da alteridade e identidade. Esse tipo de prática atribui a cada indivíduo um lugar e identidade social como a alteridade dos elementos individuais e únicas que se referem a sua origem, e visa também à interpretação e ao domínio de acontecimentos como a morte. O ato ritual permite a constituição da alteridade e da consciência de simbolização, desde que haja um domínio de dois eixos e as duas línguas do rito, ou seja, o da identidade e da alteridade (Augé 1995:84-86).

As identidades são formadas com base em um elemento que se aglutina e que relativo a este se afirma através da alteridade que transcende a sepultura em torno do personagem. A celebração do rito anula as diferenças resultante em função do sexo, idade ou, por exemplo, os indivíduos que professam alguma religião. A comemoração acontece em cada aniversário da morte do Rei Lagarto; é organizada em torno dos diferentes alterações do estado funcional na encenação, que envolve a responsabilidade para a ordem e os espectadores, gerando uma identidade comum que unicamente se constitui fixa no tempo e espaço da cerimónia ritual no cemitério, bem como no ciberespaço da internet (Augé 1995: 88-89).

Profeta, herói, personagem sagrado, semi-deus, guia, deus, senhor, rebelde, mártir, Apolo, ser privilegiado com a sua inteligência e beleza física, dionisíaco, heterosexual, beberrão...


Artigo publicado na Revista da Faculdade de Filosofia e Letras da Universidad de La Rioja - Espanha
copiado do blog: www.heldercolavitemodesto.blogspot.com
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