Livro - Jim Morrison: o poeta-xamã

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O dia em que conheci Jim Morrison

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quinta-feira, 20 de abril de 2017

Jim Morrison: animal político



*Marcus Vinícius Monteiro Pedroza Machado
*Valquiria Asche de Paula


A ação sociopolítica cidadã, necessária e responsável por assegurar a constituição democrática como modo de vida, permite sua indissociabilidade em relação às ideias de liberdade, igualdade e garantia dos direitos naturais à vida.

O indivíduo que nega sua responsabilidade pela integridade do coletivo e a transfere inteiramente a “outros”, a isso chama-se alienação, que se instala entre as pessoas deformadas pelo cansaço e pela docilidade de escravos sem exigência [Adorno].

Tornar possível a autonomia e a liberdade dos indivíduos e de seguimentos da sociedade, tendo, diante de si, o grande aparato de controle das vidas e da subjetividade, tal é tarefa que mobiliza Jim Morrison.

Se Jim Morrison tinha como princípio que a liberdade, por sua condição ontológica, é revolucionária, não deixou de lamentar quão deletéria era a atitude de uma sociedade que acumpliciava com as injustiças. “Vi um negro ser condenado sem qualquer direito de defesa”, afirma ele ao presenciar tal condenação.

Em uma de suas predileções e que sempre fazia sozinho, que era caminhar pela cidade a pé, encontrou um morador de rua em pleno inverno, sem nenhum agasalho. Vendo tal situação, tirou sua própria jaqueta de frio e deu ao morador de rua.

Numa entrevista em 1970, Jim Morrison afirmou:

Lamento que tantas pessoas estejam vivendo numa ordinária quietude, enquanto tantas injustiças estão acontecendo. Acho isso muito triste. É quase como se as pessoas fossem programadas por alguma alta autoridade, desde o nascimento até a morte, para viver uma existência bem ordenada e programada. É trágico, cara. É trágico.

Sua percepção do quadro social e da condição alienante de muitos o fazia revoltar-se contra aquelas brutais negações de justiça. E justiça, entende-se, está mais ligado à experiência material do bloqueio de reconhecimento e do sofrimento social em relação às imposições produzidas socioeconômicas e disciplinares de nossas formas de vida [Safatle].

É como se as pessoas estivessem travadas e impotentes, capturados por tantas regras sociais e seguridades artificiais, atravessados por tantos processos de assujeitamento que nosso aparato perceptivo, nossa capacidade de fazer sentido estivesse no limiar de um colapso [Bentes].

Como destravar essas férreas estruturas que circulam no interior da sociedade e que formatam os indivíduos num assujeitamento bovino? Por que os indivíduos aceitam o conformismo social com certa resignação diante do controle modulado pela ideologia da causalidade aceitável?

Dentro de Jim Morrison pulsava uma força como criação libertaria, mas as pessoas em uma sociedade de massa não assimilam esses signos de controle da biopolítica.

Esse texto propõe um exercício deveras interessante: pensar o posicionamento político de Jim Morrison sob a luz das leituras políticas atuais. Longe de ser um ponto final ele é um aceno de possibilidades de interpretação. Assim, o texto põe lado a lado abordagens possíveis e profícuas em relação à política e a sociedade e as observações sempre sensíveis de um artista de primeira grandeza como Morrison e suas angústias em relação à sociedade que o cerca.

Deleuze faz uma relação entre os instintos e as instituições que dá mais uma possibilidade para que o homem possa lidar melhor com as interdições da lei; a lei é uma interdição, contudo não é o único modo de lidar com os instintos que não desaparecerão e sempre encontrarão um caminho para aparecer, seja contra a civilização ou dentro dela própria. As instituições são modos de dar vazão para os instintos, contudo em algum momento elas não irão dar conta desses. É sobre essa tensão que o texto trabalhará.

A democracia representativa, o modelo hegemônico das democracias ao redor do mundo, possui uma série de pontos cegos que destroem sua efetividade. É a partir dessa ideia, levantada por Karl Jaspers, que pode-se pensar em como a ação política pode ser completamente pró-establishment ou também ser construtiva e produtora de uma potente ação política, dependendo de como a representação reflete a cidadania.

A insatisfação da população é expressa de modos incontroláveis, esses modos são expostos nos protestos de rua que, não poucas vezes, terminam com o confronto entre a polícia e os manifestantes. Contudo existem manifestações mais controladas que outras, de grupos com maior intimidade com o poder, que são bem vistas e desejáveis e ganham um tratamento mais frouxo em relação a repressão policial tendo inclusive ajuda de órgãos públicos para que ocorra de forma mais organizada e atraindo mais pessoas. As ruas têm que ser controladas de alguma forma para que o establishment se mantenha, porém, essa coisa parece escapar a cada momento.

Jim Morrison era um grande amante de filosofia, e de Nietzsche. É é muito interessante tentar dar conta de todas as leituras anteriores a partir do jogo de forças expostas por Nietzsche. Assim as potências estéticas, Apolíneas e Dionisíacas, são de fato um elemento unificador das narrativas apontadas acima. Sempre a todo momento a civilização sonha em controlar o humano e sua potência (de maneira apolínea) contudo esse controle sempre escapa instintivamente (de maneira dionisíaca). Assim as duas potências estéticas são modeladoras e potentes e assim dão o tom de como o homem se organiza.

O Estado gestor de instintos

Deleuze ao refletir sobre o papel do Estado em um de seus textos o coloca como um gestor dos instintos irrefreáveis, desse modo a qualquer momento o choque entre a sociedade que falha em direcionar os instintos e as instituições que os direciona ocorre. A ação política tem como cerne acomodar o que é impossível de ser acomodado definitivamente; nesse sentido a arte enquanto uma demonstração daquilo que é indemonstrável, materializa essa tensão.

O rock de Jim Morrison demonstra uma miríade de possibilidades de expressão do instinto que escapa, transborda como uma força irrefreável. Basta lembrar-se dos shows que terminam quase que em rituais báquicos e o eterno questionamento institucional feito por Jim Morrison e toda a sua geração artística.

O sentimento de rebeldia vem justo da incompatibilidade entre os instintos e a incapacidade das instituições de responder a esses instintos. Daí o sentimento de descontentamento que toma conta de Jim Morrison nas passagens postas acima.

O trágico posto em um dos lamentos não possui o mesmo conteúdo que os grandes filósofos da tragédia tomam para ele; é óbvio que o conformismo é completamente desastroso e antiestético, estar em conformidade com o mundo é contrário à estética trágica que surge justo do conflito entre as duas potências a apolínea e a dionisíaca. Dessa forma a constatação de Morrison vai ao encontro com a de uma série de outros artistas como Charles Bukowiski que viam na conformação com o modelo social injusto uma impossibilidade abissal e lança suas fichas justo nessa fratura.

Contudo esses artistas não fazem somente uma crítica das injustiças sociais, a crítica é mais profunda. Ela é sobre o modelo de existência; Morrison faz uma crítica ontológica em sua obra, ela não é sobre em que sociedade vive-se ou deixa-se de viver, ela é uma reflexão acerca das grandes questões que assombram a humanidade que se repetem desde sempre.

A incompatibilidade entre os homens e os modelos que eles próprios criam é evidente e eterna. É essa incompatibilidade que lança uma série de homens à injustiça, mas também garante a beleza, pois garante a potência ao artista, algo como uma contradição que garante a diferença entre os homens e entre eles e o mundo. Essa potência ontológica está expressa em um sem número de letras dos Doors como The End:

                                  The killer awoke before dawn
He put his boots on
He took a face from the ancient gallery
And he walked on down the hall
He went into the room where his sister lived
And... then he
Paid a visit to his brother, and then he
He walked on down the hall, and
And he came to a door... and he looked inside
"Father? ", "yes son", "I want to kill you"
"Mother... I want to... fuck you".

O “drible” da democracia burguesa, ou política e violência

Karl Jaspers em muitos de seus textos reflete sobre a democracia representativa e os limites de sua legitimidade para responder aos anseios da população. A alienação política parece sempre o caminho mais cômodo para a massa da população, como se o fato do indivíduo não participar da ação política fizesse com que a política não o afetasse.

Esse comportamento é algo de comum em qualquer grande democracia do planeta, no mundo desenvolvido ou no terceiro mundo com os matizes possíveis e imagináveis.

Assim a origem dele está na diminuição cada vez maior dos laços entre os representantes e os representados, se é que eles já existiram, criando assim um questionamento bastante pertinente: Por que representação? O que faz com que as pessoas se comportem “bovinamente” ou na “ordinária quietude” designada por Jim Morrison acima no texto?

É óbvio que as forças políticas que se aninham no poder querem nele permanecer e para que isso ocorra elas irão trabalhar para conservar aquilo que as fez chegar lá, ou seja: a alienação, a descrença política, a ideia de que a ação política é o destino dos “espertalhões” da vez.

 A política não irá desaparecer se as pessoas simplesmente ignorá-la e ela não mudará caso elas ignorem; o fato é que caso a população continue a realizar sempre as mesmas coisas elas irão sempre colher os mesmos resultados. Lançar a ação política nas mãos de uma oligarquia com intimidades com o poder é associar o destino da população a ela e o resultado será sempre a submissão. Logo, não é possível esperar de quem se beneficia da ordem político-social que aja de maneira revolucionária. Sua intenção é e sempre será manter-se agarrado ao poder.

A política é a alternativa a violência para o entendimento entre os homens, contudo quando os homens se recusam a fazer política o que resta é a violência. Em não raros momentos da história da humanidade as únicas alternativa foram a violência ou o extermínio mudo no interior de sociedades onde a coexistência é tornada mais ou menos possível permanece latente em seu interior. Não existe o homem alijado dela e nem sociedade onde foi extinta. Ela permanece sempre enquanto alternativa à política e atinge com mais intensidade quem está fora da política como os moradores de rua, habitantes da favela e a massa trabalhadora em geral. Pessoas a quem a alternativa a violência é diminuída ao extremo.

Talvez nada seja mais extremo para exemplificar a afirmação acima do que as políticas implementadas pelo estado do Rio de Janeiro nos últimos anos. Para áreas com grandes problemas sociais e carência do serviço público o governo enviou bases permanentes da polícia, para áreas onde a especulação imobiliária aponta o nariz, gigantescos empreendimentos desculpados pelos jogos olímpicos; para os servidores da justiça o salário em dia, para os servidores do executivo parcelas eternas de seus vencimentos.  Por que tanta diferença entre um e outro? A mais pura e óbvia discrepância de peso político e representatividade entre os estratos da população, que lança para a violência e desamparo uma parcela enorme da população e para a abundância alguns poucos príncipes.

Assim, o que Jim Morrison enxerga, com toda a razão, é a violência existente de toda a falta de ação política. Quando é negado ao homem resolver seus problemas de modo político a única ação possível torna-se a violência.

A criminalização da luta na rua

A alternativa a falta de política sempre foi a luta, seja a luta armada contra ditaduras seja a luta institucional dos sindicatos, seja a potente luta organizada pelos movimentos sociais organizados ou ainda as expressões de protestos nas ruas das cidades. A questão interessante é que os poderes instituídos trabalham incessantemente para dizerem qual é validade da luta que se trava e quem deve estar nas ruas e quem está fazendo “arruaça”; enquanto alguns manifestantes ganham de “presente” passagens grátis de metrô e tiram fotos com representantes da lei outros tantos ganham do establishment no máximo uma batalha campal, noites na cadeia e uma cobertura desprestigiada da mídia.

O establishment tem completo horror daquilo que foge ao seu controle, daí a criação de um aparato gigante de controles e autocensuras impostas e auto impostas em todos os modelos possíveis de modo a desacreditar, desprestigiar, desmerecer e, no limite, destruir fisicamente qualquer movimento que critique o establishment.

E o que se chama de establishment aqui? O establishment não é o governo somente, é tudo o que obtém vantagem da ordem estabelecida. É por isso que cada vez menos me espanto ao ver artistas que defendem posições extremamente conservadoras, política e socialmente, líderes sindicais que se acham “donos” das manifestações de rua e jornalistas que jamais tiveram qualquer necessidade de luta política dando aulas de como “reivindicar direitos”.

É nesse cenário que artistas que preferiram contrariar o establishment tornam-se exemplares. E assim The Doors tornam-se parte de uma classe de artistas capazes de transformar as possiblidades dadas ao homem em obras de arte, assim como Bob Dylan ou Zé Celso Martinez Correa que ao invés de fazerem coro com a repressão preferiram experimentar novas modalidades estéticas.

O medo do caos

Segundo Nietzsche a humanidade se equilibra entre duas potências estéticas antagônicas e complementares: a potência apolínea e a dionisíaca. Elas são potências estéticas, pois nenhuma das duas tem a primazia de dizer algo de verdadeiro sobre o mundo, somente dar vazão a perspectivas sobre ele, pois no fim tais potências são expressões daquilo que Nietzsche chamará de vontade de potência. O sonho apolíneo claro e evidente de harmonia e paz na terra nunca ocorreu e jamais ocorrerá; não é da natureza a paz perpétua, por outro lado a embriaguez pura e simples não é capaz de construir nada de aproveitável. Por possuir essas duas potências dentro de si o homem tem a necessidade de criar modos de dar vazão a essa vontade de potência, seja do modo do sonho apolíneo, seja a embriaguez dionisíaca a força da tragédia emana justamente da coexistência dessas duas forças em conjunto, atuando enquanto uma imagem própria da existência.

Voltando à fala de Jim Morrison no início desta incursão quando ele diz que aquilo que vê é trágico, pode-se dar razão a ele; é trágico pois é humano e o ser humano é trágico em seu modo de existir. As duas potências apolínea e dionisíaca representam nas imagens criadas por Nietzsche a civilização apolínea e o barbarismo dionisíaco, sendo modos de estetizar a existência elas não são verdades, elas são meios de lidar com uma verdade que não traz consigo os meios.

A política é o lugar para que as diversas forças que existem na condição humana possam tomar seu lugar, em um intenso jogo de hierarquizações e ordenamentos sociais que não cessa. Assim o artista possui um lugar todo especial na sociedade pois torna imaginável aquilo que antes estava oculto, torna visível o que os poderosos adorariam esconder. O  caos de onde as coisas surgem é tudo o que os poderosos querem evitar e tudo o que o povo deveria aspirar.

*Marcus Vinícius M. Pedroza Machado - Formado em Filosofia pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), ensaísta e professor.
*Valquiria Asche de Paula – formada em psicologia e mestranda em psicologia social [UFABC]



Bibliografia 

NIETZSCHE, Friedrich. Crepúsculo dos Ídolos. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

JASPERS, Karl. Introdução ao pensamento filosófico. Tradução de Leonidas Hegeberg e Octanny Silveira da Mota. São Paulo: Editora Cultrix, 2011.

DELEUZE, Gilles. A ilha deserta e outros texto, textos e entrevistas (1953-1974). Organização da edição brasileira e revisão técnica: Luiz B. L. Orlandi. São Paulo, editora Iluminuras, 2014.

DEPUIS-DÉRI, Francis. Émergence de la notion de "profilage politique": répression policière et mouvements sociaux au Québec. Revue Politique et Sociétés Volume 33, Numéro 3, 2014, p. 31–56.

SAFATLE, Vladimir, Grande Hortel Abismo. São Paulo. Martins Fontes, 2012.



segunda-feira, 17 de abril de 2017

JIm Morrion - Prefácio



Aceitei escrever algumas linhas celebrando a publicação do livro Jim Morrison, o poeta-xamã, do Marcel de Lima, sem saber, a priori, o quanto essa ideia era esplendorosa e punk ao mesmo tempo... Talvez meu ego, este imponderável personagem que me atormenta tanto, me dissesse: "Sim aceita... aceita mesmo sem saber... você adorava Jim Morrison!" E aceitei!

Ao percorrer a versão datilografada, fiquei entusiasmado com o arrojo e a originalidade do pensamento do Marcel ao intuir e estudar a relação entre a obra poética do Jim e a tradição xamânica, contando para tal com a participação e intervenção de deuses gregos, além de pensadores contemporâneos.

Trata-se de uma obra excepcional, importante, documentada com cuidado, fluida, e tão claramente redigida, página após página, para levar o leitor numa viagem cultural espetacular, iniciando-se na Sibéria, desde os primórdios da humanidade, até o palco de um dos maiores mitos do rock morto aos 27 anos: Jim Morrison!

Dionísio, Platão, Apolo, Lévi-Strauss, Mircea Eliade, Castaneda, Nietzsche, Kerouac, entre tantos outros, se sucedem para ilustrar o pensamento do escritor; não podia faltar a transcrição dos poemas em versão original e versão brasileira, para que a leitura resultasse numa festa completa, fascinante e em um prazer indescritível.

Que viagem incrível, Marcel, lhe felicito do fundo do meu coração, adorei o seu livro, posso recomendar com entusiasmo e finalmente confesso que fiquei preocupado em não ser uma pessoa suficientemente brilhante para escrever este prefácio... Você merecia alguém melhor para essa tarefa... Porém fui eu o convidado!


André Midani 

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