Livro - Jim Morrison: o poeta-xamã

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O dia em que conheci Jim Morrison

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terça-feira, 17 de dezembro de 2013

The Doors não tem continuadores



Jim Morrison, o poeta discípulo de Dionísio

Dr. Bruno Ferreira
e  Ana Welt


Morrison era grande entusiasta do visionário Blake, tendo dado nome à banda em referência às Portas da Percepção blakeanas. Há inclusive versos de Morrison que erroneamente são atribuídos a Blake, e que definem conceitualmente a banda: “There are things known, and there things unknown. And in between are the doors” (“Há coisas conhecidas, e há coisas desconhecidas. E entre elas há as portas”). Morrison, que era conhecido por vários nomes, como o Lizard King (“Rei Lagarto”) ou Mr. Mojo Risin‟ (anagrama de seu nome, talvez) era contra a sociedade estabelecida, repressiva, autoritária, não aceitava autoridade, e por diversas vezes foi preso por indisciplina. Morrison, Influenciado pelos autores de sua rica formação, tendo lido muito, dentro e fora da Universidade, com seu grande interesse pelo misticismo da cultura indígena, o The Doors foi a primeira banda de rock a tratar um show como um ritual, não como entretenimento. Foi por isso que Alberto Marsicano afirmou: “The Doors não tem continuadores”. O palco era o altar e Jim, o sacerdote, ou por vezes literalmente o xamã, a inclusive dançar nos moldes indígenas, sob efeito de transe e/ou embriaguez dionisíaca. E quando nos referimos ao deus do vinho, estamos, de certa forma, atestando no rock o que Nietzsche definiria como característica intrínseca da música: a dualidade entre Apolo e Dionísio.

Se a música aparentemente já era conhecida como uma arte apolínea, ela
o era apenas, a rigor, enquanto batida ondulante do ritmo, cuja força
figuradora foi desenvolvida para a representação de estados apolíneos.
(...) Mantinha-se cautelosamente à distância aquele preciso elemento que,
não sendo apolíneo, constitui o caráter da música dionisíaca e, portanto,
da música em geral: a comovedora violência do som, a torrente unitária
de melodia e o mundo absolutamente incomparável da harmonia. No
ditirambo dionisíaco o homem é incitado à máxima intensificação de
todas as suas capacidades simbólicas; algo jamais experimentado
empenha-se em exteriorizar-se, a destruição do véu de Maia, o ser uno
enquanto gênio da espécie, sim, da natureza. Agora a essência da natureza
deve expressar-se por via simbólica; um novo mundo de símbolos se faz
necessário, todo o simbolismo corporal, não apenas o simbolismo dos
lábios, dos semblantes das palavras, mas o conjunto inteiro, todos os
gestos bailantes dos membros em movimentos rítmicos. Então crescem as
outras forças simbólicas, as da música, em súbita impetuosidade, na
rítmica, na dinâmica e na harmonia. Para captar esse desencadeamento
simultâneo de todas as forças simbólicas, o homem já deve ter arribado
ao nível de desprendimento de si próprio que deseja exprimir-se
simbolicamente naquelas forças: o servidor ditirâmbico de Dionísio só é,
portanto entendido por seus iguais! Com que assombro devia mirá-lo o
grego apolíneo. Com um assombro que era tanto maior quanto em seu
íntimo se lhe misturava o temor de que, afinal, aquilo tudo não lhe era na
realidade tão estranho, que sua consciência apolínea apenas lhe cobria
como um véu esse mundo dionisíaco [Nietzsche – O nascimento da tragédia, pp. 36-37]


 Em “Break on Through to the Other Side” (“Irrompendo para o outro lado”), encontramos esse apelo a que se refere Nietzsche. O rock’n‟ roll, cuja tradução literal de seu termo seria “sacudir e rolar” tem como princípios formadores a ligação com a energia corporal, sinestésica, rítmica  do corpo. É uma música intensa, cujo corpo reage de acordo. Morrison se serve do Rock por algum tempo para abrir canais e fazer expressar, por meio da dança, o ritual no palco, e fazer abandonar o marasmo hipócrita do dia-a-dia e buscar um nirvana, mas sabe que apenas fazer isso mentalmente não é o suficiente. O transe a que ele se submete não é apenas mental, mas físico também. Blake mesmo não fazia dissociação de corpo e alma, como vimos. Para ele, o corpo era uma projeção da alma enquanto neste mundo.

You know the day destroys the night,
Night divides the day
Tried to run, tried to hide,
Break on through to the other side,
Break on through to the other side,
Break on through to the other side
We chased our pleasures here,
Dug our treasures there,
But can you still recall the time we cried?
Break on through to the other side,
Break on through to the other side.

Já na canção “Crystal Ship” (“Barco de Cristal”), temos um sensual Morrison, inebriando seus sentidos da forma que também aprendera com Rimbaud, outro poeta rebelde de grande influência para sua arte.

Tal ode ao amor livre, descompromissado, ao êxtase tântrico, de elevação carno-espiritual, de inspiração no mito nórdico [Modesto, p.199] possui sua provável origem em “The Crystal Cabinet” (“A Cabine de Cristal”), de Blake:

The Maiden caught me in the wild
Where I was dancing merrily
She put me into her Cabinet,
And lock'd me up with a golden key
A Donzela pegou-me na floresta
Onde eu dançava alegremente
Ele me pôs dentro de sua Cabine
E me trancou com uma chave dourada
This cabinet is form'd of gold
And pearl and crystal shining bright
And within it opens into a world
And a little lovely moony night


[Blake, The Complete Poetry and Prose of William Blake, p. 488-489.
Tradução livre].

Enfim, a rica, intensa e conturbada carreira do The Doors com Jim Morrison foi meteórica, durando apenas quatro anos, mas tendo sido tempo suficiente para marcar as gerações de jovens amantes do rock’n roll, da busca por mudanças, por liberdade, transcendência, amor livre, encontraram no gênio de Morrison um exemplo máximo a ser seguido.





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