Livro - Jim Morrison: o poeta-xamã

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Livro: O dia em que conheci Jim Morrison

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Livro: Riders on the Storm: Minha vida com Jim Morrison

Livro: O grito, o mito e a história em Jim Morrison - A arte como choque e redenção

Livro: Jim Morrison - O Navio de Cristal

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domingo, 4 de maio de 2025

Jim Morrison: as prerrogativas de poucos


“Eu acredito na democracia”, afirma Jim Morrison. Essa defesa que ele fazia da democracia era recorrente. Numa ocasião, por conta de um pequeno acidente em um show dos Doors, como quem pedia calma para os seguranças, disse ele: “vivemos numa democracia”.

Afirmava que a liberdade era necessária para o artista, e “o que estamos testando é a questão da liberdade de expressão do artista”, disse ele. Mas não era bem isso que pensava o sistema conservador da época, sempre pronto para coibir essas ideias de liberdade que pregava Jim Morrison, de outros e como foi o caso da peça “The Living Theatre”, nos anos 70, que, a partir de “Paradise Now”, peça divisora de águas na história do grupo, Julian Beck e Judith Malina resolvem radicalizar ainda mais e propõem um teatro que buscava toda a potência do viver, sentir e pensar.

De fato, a democracia é um regime que assegura a liberdade, sendo ela própria, a liberdade, a prerrogativa para uma sociedade verdadeiramente democrática.

Mas a verdadeira democracia só se fortalece e se amplia com a participação de todos, para que não venha a ser prerrogativa de alguns poucos decidir por muitos aquilo que pertence a todos. Quando isso ocorre, quando se deixa que poucos decidam por nós, as piores injustiças começam a acontecer. Foi o que afirmou Jim Morrison, lamentando a passividade das pessoas:

“Lamento que tantas pessoas vivam tão omissas e indiferentes, enquanto tantas injustiças estão acontecendo”.

A alienação da conformidade era algo que Jim Morrison não perdoava. Sua postura era de total inconformismo com a acomodação que ele via nas pessoas. Dizia:

“Acho isso muito triste. É quase como se as pessoas fossem programadas por alguma alta autoridade, desde o nascimento até a morte, para viver uma existência bem ordenada e programada. É trágico, cara. É trágico.

A democracia, quando deixada que poucos ou um grupo seletivo decidam tudo em nosso lugar, o Estado se reduzirá a um grande aparato disciplinar, movendo toda a sua engrenagem policialesca e repressiva contra o próprio indivíduo.

Jim Morrison costumava defender sempre a democracia, mas deixava muito bem claro que falava de uma democracia como forma de soberania popular, com a participação e decisão de todos, ideia fundamental da democracia verdadeira, tal como dizia Rousseau, filósofo que Jim Morrison havia estudado quando ainda estava na UFS – Universidade da Flórida, antes de transferir-se para a UCLA.

A democracia como afirmação da vontade de cada um, pensa Jim Morrison, pois, se eu passo a minha vontade para a vontade de um outro, ele começa a passar por minha vontade, ou seja, ele vai começar a agir em nome da minha vontade, sendo que ela é a vontade de um outro.

Jim Morrison convidava, encorajava, apelava à coragem de cada um a pensar por si próprio, pois somente ai a liberdade podia raiar. E somente ai podemos encontrar o terreno fértil para a democracia plena, tal como ele defendia.

Sabia que a melhor coisa na vida é a liberdade”? “Sou o homem da liberdade, sou o homem da liberdade, tal foi a sorte que tive”, recitou tenazmente para o público.

Podemos tudo quando estamos juntos, afirmava ele. Uma afirmação que trazia em seu interior a capacidade de quebrar os agenciamentos e os interditos formados pela clivagem dos indivíduos. Essa forma de estar juntos, de podermos tudo quando agimos juntos, é o zênite cabal que dá forma à democracia. Não podemos ceder a nada que quebre com essa possibilidade de “erguermos juntos um novo campanário” de consagração à forma de vivermos juntos. “Trata-se sempre de liberar a vida lá onde ela é prisioneira”, como afirma Deleuze.

Sendo a democracia a forma mais digna e mais plausível de se viver juntos, posto que ela assegura as liberdades, como diz Jim Morrison, ela própria só pode ser assegurada com a participação consciente dos indivíduos. Caso os indivíduos se resignem a uma “vida de gado”, apassivados, alienados de suas próprias vontades, teremos deixado que outros decidam por nós, que nos conduzam. Logo sentiremos o esmagamento desta servidão.

Entretanto, para que não se venha a cair em tamanha alienação, Jim Morrison afirma que “as pessoas deveriam participar mais ativamente, ao invés de designar todo o seu poder a uns poucos indivíduos”.

Jim Morrison via na democracia plena o lugar onde habitava as possibilidades de recriar as múltiplas e plásticas maneiras de vivenciar a liberdade necessária para abarcar o continuum do tempo subjetivo de vivencia, tornado possíveis a autonomia e a liberdade dos indivíduos e de segmentos da vida e das subjetividades.

Nesse processo, revisitar os limites e as proposições de Jim Morrison é sempre um convite ao inconformismo, ao exercício da crítica, à capacidade de indignação, imersos no sensível universo de uma arte que buscou retirar da letargia os seus fruidores [Patriota, p.15]

Em todas essas instaurações pensadas por Jim Morrison, reativa-se a função poética-política da vida como forma de arte, produzindo uma resistência à tentativa de perverte-la.

  

Valquiria Asche de Paula – formada em psicologia e mestranda em psicologia social [UFABC]

Zélia Siqueira – jornalista e artista visual.

 

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Da alienação que incomodava Jim Morrison


Vivemos um momento de passividade do brasileiro ante a situação política do nosso país, coisa que chamou a atenção na Alemanha, em reportagem especial, a agência notícias alemã Deutche Welle retrata a apatia da maioria da população brasileira diante dos escândalos que têm Michel Temer como protagonista e de um congresso que tem sua imensa maioria denunciada por corrução.

Mesmo assim, ainda é comum ver pessoas dizerem que não se interessam por política. Quando alguém diz que não se interessa por política, acreditando que pode cuidar exclusivamente de seus interesses particulares e que estes não têm a ver com as atividades políticas, está revelando falta de consciência.  Na realidade não existe quem não sofra as consequências das decisões de governo, que são essencialmente políticas. Manter-se alheio à política é uma forma de dar apoio antecipado e incondicional a todas as decisões do governo, o que é, em última análise, uma decisão política. Por ai se vê o engano de quem acredita manter-se fora da política, sem nenhuma relação com ela.

Assim sendo, é preciso ter consciência de que os problemas políticos são, sempre, problemas de todos os membros da sociedade.

Eu acredito, assim como Jim Morrison, que as pessoas precisam participar ativamente nas decisões políticas, mas precisam antes romper as estruturas que barram sua percepção e criatividade.

Estruturas essas criadas pela elite, desde os primórdios da história de nosso país. Estruturas estas que conseguem manter as pessoas alheias a realidade política e econômica do Brasil. Existem várias variáveis que reforçam essas estruturas, entre elas está a mídia que muitas vezes distorce as informações, o monopólio das ideologias religiosas e políticas, a modernidade líquida que apresenta fluida, desapegada de promessas de emancipação, de compromissos sociais e políticos.

Mas essas estruturas só existem porque as pessoas dão sustentação a elas, por meio de suas inércias, da alienação, o que acaba favorecendo que uns poucos tomem a frente e passem a controlar o destino e as decisões de todos.  

Jim Morrison achava ridícula a ideia de que um número restrito de pessoas fossem representantes de uma população inteira.

Acreditava que a política era simplesmente o diálogo aberto entre as pessoas, o contato social entre estas e a troca de ideias e perspectivas.

Parece que não é bem isso que temos visto no cenário atual. O rei lagarto preferia morrer na luta pela liberdade de ser, de viver, de expressar, a ser conivente com uma forma de sociedade organizada e controlada por semíviros.


Eduardo Tolentino –  professor de história e membro ativo do projeto 'Educação Patrimonial'.


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quinta-feira, 20 de abril de 2017

Jim Morrison: animal político



*Marcus Vinícius Monteiro Pedroza Machado
*Valquiria Asche de Paula


A ação sociopolítica cidadã, necessária e responsável por assegurar a constituição democrática como modo de vida, permite sua indissociabilidade em relação às ideias de liberdade, igualdade e garantia dos direitos naturais à vida.

O indivíduo que nega sua responsabilidade pela integridade do coletivo e a transfere inteiramente a “outros”, a isso chama-se alienação, que se instala entre as pessoas deformadas pelo cansaço e pela docilidade de escravos sem exigência [Adorno].

Tornar possível a autonomia e a liberdade dos indivíduos e de seguimentos da sociedade, tendo, diante de si, o grande aparato de controle das vidas e da subjetividade, tal é tarefa que mobiliza Jim Morrison.

Se Jim Morrison tinha como princípio que a liberdade, por sua condição ontológica, é revolucionária, não deixou de lamentar quão deletéria era a atitude de uma sociedade que acumpliciava com as injustiças. “Vi um negro ser condenado sem qualquer direito de defesa”, afirma ele ao presenciar tal condenação.

Em uma de suas predileções e que sempre fazia sozinho, que era caminhar pela cidade a pé, encontrou um morador de rua em pleno inverno, sem nenhum agasalho. Vendo tal situação, tirou sua própria jaqueta de frio e deu ao morador de rua.

Numa entrevista em 1970, Jim Morrison afirmou:

“Lamento que tantas pessoas vivam  tão omissas e indiferentes, enquanto tantas injustiças estão acontecendo. Acho isso muito triste. É quase como se as pessoas fossem programadas por alguma alta autoridade, desde o nascimento até a morte, para viver uma existência bem ordenada e programada. É trágico, cara. É trágico.

Sua percepção do quadro social e da condição alienante de muitos o fazia revoltar-se contra aquelas brutais negações de justiça. E justiça, entende-se, está mais ligado à experiência material do bloqueio de reconhecimento e do sofrimento social em relação às imposições produzidas socioeconômicas e disciplinares de nossas formas de vida [Safatle].

É como se as pessoas estivessem travadas e impotentes, capturados por tantas regras sociais e seguridades artificiais, atravessados por tantos processos de assujeitamento que nosso aparato perceptivo, nossa capacidade de fazer sentido estivesse no limiar de um colapso [Bentes].

Como destravar essas férreas estruturas que circulam no interior da sociedade e que formatam os indivíduos num assujeitamento bovino? Por que os indivíduos aceitam o conformismo social com certa resignação diante do controle modulado pela ideologia da causalidade aceitável?

Dentro de Jim Morrison pulsava uma força como criação libertaria, mas as pessoas em uma sociedade de massa não assimilam esses signos de controle da biopolítica.

Esse texto propõe um exercício deveras interessante: pensar o posicionamento político de Jim Morrison sob a luz das leituras políticas atuais. Longe de ser um ponto final ele é um aceno de possibilidades de interpretação. Assim, o texto põe lado a lado abordagens possíveis e profícuas em relação à política e a sociedade e as observações sempre sensíveis de um artista de primeira grandeza como Morrison e suas angústias em relação à sociedade que o cerca.

Deleuze faz uma relação entre os instintos e as instituições que dá mais uma possibilidade para que o homem possa lidar melhor com as interdições da lei; a lei é uma interdição, contudo não é o único modo de lidar com os instintos que não desaparecerão e sempre encontrarão um caminho para aparecer, seja contra a civilização ou dentro dela própria. As instituições são modos de dar vazão para os instintos, contudo em algum momento elas não irão dar conta desses. É sobre essa tensão que o texto trabalhará.

A democracia representativa, o modelo hegemônico das democracias ao redor do mundo, possui uma série de pontos cegos que destroem sua efetividade. É a partir dessa ideia, levantada por Karl Jaspers, que pode-se pensar em como a ação política pode ser completamente pró-establishment ou também ser construtiva e produtora de uma potente ação política, dependendo de como a representação reflete a cidadania.

A insatisfação da população é expressa de modos incontroláveis, esses modos são expostos nos protestos de rua que, não poucas vezes, terminam com o confronto entre a polícia e os manifestantes. Contudo existem manifestações mais controladas que outras, de grupos com maior intimidade com o poder, que são bem vistas e desejáveis e ganham um tratamento mais frouxo em relação a repressão policial tendo inclusive ajuda de órgãos públicos para que ocorra de forma mais organizada e atraindo mais pessoas. As ruas têm que ser controladas de alguma forma para que o establishment se mantenha, porém, essa coisa parece escapar a cada momento.

Jim Morrison era um grande amante de filosofia, e de Nietzsche. É é muito interessante tentar dar conta de todas as leituras anteriores a partir do jogo de forças expostas por Nietzsche. Assim as potências estéticas, Apolíneas e Dionisíacas, são de fato um elemento unificador das narrativas apontadas acima. Sempre a todo momento a civilização sonha em controlar o humano e sua potência (de maneira apolínea) contudo esse controle sempre escapa instintivamente (de maneira dionisíaca). Assim as duas potências estéticas são modeladoras e potentes e assim dão o tom de como o homem se organiza.

O Estado gestor de instintos

Deleuze ao refletir sobre o papel do Estado em um de seus textos o coloca como um gestor dos instintos irrefreáveis, desse modo a qualquer momento o choque entre a sociedade que falha em direcionar os instintos e as instituições que os direciona ocorre. A ação política tem como cerne acomodar o que é impossível de ser acomodado definitivamente; nesse sentido a arte enquanto uma demonstração daquilo que é indemonstrável, materializa essa tensão.

O rock de Jim Morrison demonstra uma miríade de possibilidades de expressão do instinto que escapa, transborda como uma força irrefreável. Basta lembrar-se dos shows que terminam quase que em rituais báquicos e o eterno questionamento institucional feito por Jim Morrison e toda a sua geração artística.

O sentimento de rebeldia vem justo da incompatibilidade entre os instintos e a incapacidade das instituições de responder a esses instintos. Daí o sentimento de descontentamento que toma conta de Jim Morrison nas passagens postas acima.

O trágico posto em um dos lamentos não possui o mesmo conteúdo que os grandes filósofos da tragédia tomam para ele; é óbvio que o conformismo é completamente desastroso e antiestético, estar em conformidade com o mundo é contrário à estética trágica que surge justo do conflito entre as duas potências a apolínea e a dionisíaca. Dessa forma a constatação de Morrison vai ao encontro com a de uma série de outros artistas como Charles Bukowiski que viam na conformação com o modelo social injusto uma impossibilidade abissal e lança suas fichas justo nessa fratura.

Contudo esses artistas não fazem somente uma crítica das injustiças sociais, a crítica é mais profunda. Ela é sobre o modelo de existência; Morrison faz uma crítica ontológica em sua obra, ela não é sobre em que sociedade vive-se ou deixa-se de viver, ela é uma reflexão acerca das grandes questões que assombram a humanidade que se repetem desde sempre.

A incompatibilidade entre os homens e os modelos que eles próprios criam é evidente e eterna. É essa incompatibilidade que lança uma série de homens à injustiça, mas também garante a beleza, pois garante a potência ao artista, algo como uma contradição que garante a diferença entre os homens e entre eles e o mundo. Essa potência ontológica está expressa em um sem número de letras dos Doors como The End:

                                  The killer awoke before dawn
He put his boots on
He took a face from the ancient gallery
And he walked on down the hall
He went into the room where his sister lived
And... then he
Paid a visit to his brother, and then he
He walked on down the hall, and
And he came to a door... and he looked inside
"Father? ", "yes son", "I want to kill you"
"Mother... I want to... fuck you".

O “drible” da democracia burguesa, ou política e violência

Karl Jaspers em muitos de seus textos reflete sobre a democracia representativa e os limites de sua legitimidade para responder aos anseios da população. A alienação política parece sempre o caminho mais cômodo para a massa da população, como se o fato do indivíduo não participar da ação política fizesse com que a política não o afetasse.

Esse comportamento é algo de comum em qualquer grande democracia do planeta, no mundo desenvolvido ou no terceiro mundo com os matizes possíveis e imagináveis.

Assim a origem dele está na diminuição cada vez maior dos laços entre os representantes e os representados, se é que eles já existiram, criando assim um questionamento bastante pertinente: Por que representação? O que faz com que as pessoas se comportem “bovinamente” ou na “ordinária quietude” designada por Jim Morrison acima no texto?

É óbvio que as forças políticas que se aninham no poder querem nele permanecer e para que isso ocorra elas irão trabalhar para conservar aquilo que as fez chegar lá, ou seja: a alienação, a descrença política, a ideia de que a ação política é o destino dos “espertalhões” da vez.

 A política não irá desaparecer se as pessoas simplesmente ignorá-la e ela não mudará caso elas ignorem; o fato é que caso a população continue a realizar sempre as mesmas coisas elas irão sempre colher os mesmos resultados. Lançar a ação política nas mãos de uma oligarquia com intimidades com o poder é associar o destino da população a ela e o resultado será sempre a submissão. Logo, não é possível esperar de quem se beneficia da ordem político-social que aja de maneira revolucionária. Sua intenção é e sempre será manter-se agarrado ao poder.

A política é a alternativa a violência para o entendimento entre os homens, contudo quando os homens se recusam a fazer política o que resta é a violência. Em não raros momentos da história da humanidade as únicas alternativa foram a violência ou o extermínio mudo no interior de sociedades onde a coexistência é tornada mais ou menos possível permanece latente em seu interior. Não existe o homem alijado dela e nem sociedade onde foi extinta. Ela permanece sempre enquanto alternativa à política e atinge com mais intensidade quem está fora da política como os moradores de rua, habitantes da favela e a massa trabalhadora em geral. Pessoas a quem a alternativa a violência é diminuída ao extremo.

Talvez nada seja mais extremo para exemplificar a afirmação acima do que as políticas implementadas pelo estado do Rio de Janeiro nos últimos anos. Para áreas com grandes problemas sociais e carência do serviço público o governo enviou bases permanentes da polícia, para áreas onde a especulação imobiliária aponta o nariz, gigantescos empreendimentos desculpados pelos jogos olímpicos; para os servidores da justiça o salário em dia, para os servidores do executivo parcelas eternas de seus vencimentos.  Por que tanta diferença entre um e outro? A mais pura e óbvia discrepância de peso político e representatividade entre os estratos da população, que lança para a violência e desamparo uma parcela enorme da população e para a abundância alguns poucos príncipes.

Assim, o que Jim Morrison enxerga, com toda a razão, é a violência existente de toda a falta de ação política. Quando é negado ao homem resolver seus problemas de modo político a única ação possível torna-se a violência.

A criminalização da luta na rua

A alternativa a falta de política sempre foi a luta, seja a luta armada contra ditaduras seja a luta institucional dos sindicatos, seja a potente luta organizada pelos movimentos sociais organizados ou ainda as expressões de protestos nas ruas das cidades. A questão interessante é que os poderes instituídos trabalham incessantemente para dizerem qual é validade da luta que se trava e quem deve estar nas ruas e quem está fazendo “arruaça”; enquanto alguns manifestantes ganham de “presente” passagens grátis de metrô e tiram fotos com representantes da lei outros tantos ganham do establishment no máximo uma batalha campal, noites na cadeia e uma cobertura desprestigiada da mídia.

O establishment tem completo horror daquilo que foge ao seu controle, daí a criação de um aparato gigante de controles e autocensuras impostas e auto impostas em todos os modelos possíveis de modo a desacreditar, desprestigiar, desmerecer e, no limite, destruir fisicamente qualquer movimento que critique o establishment.

E o que se chama de establishment aqui? O establishment não é o governo somente, é tudo o que obtém vantagem da ordem estabelecida. É por isso que cada vez menos me espanto ao ver artistas que defendem posições extremamente conservadoras, política e socialmente, líderes sindicais que se acham “donos” das manifestações de rua e jornalistas que jamais tiveram qualquer necessidade de luta política dando aulas de como “reivindicar direitos”.

É nesse cenário que artistas que preferiram contrariar o establishment tornam-se exemplares. E assim The Doors tornam-se parte de uma classe de artistas capazes de transformar as possiblidades dadas ao homem em obras de arte, assim como Bob Dylan ou Zé Celso Martinez Correa que ao invés de fazerem coro com a repressão preferiram experimentar novas modalidades estéticas.

O medo do caos

Segundo Nietzsche a humanidade se equilibra entre duas potências estéticas antagônicas e complementares: a potência apolínea e a dionisíaca. Elas são potências estéticas, pois nenhuma das duas tem a primazia de dizer algo de verdadeiro sobre o mundo, somente dar vazão a perspectivas sobre ele, pois no fim tais potências são expressões daquilo que Nietzsche chamará de vontade de potência. O sonho apolíneo claro e evidente de harmonia e paz na terra nunca ocorreu e jamais ocorrerá; não é da natureza a paz perpétua, por outro lado a embriaguez pura e simples não é capaz de construir nada de aproveitável. Por possuir essas duas potências dentro de si o homem tem a necessidade de criar modos de dar vazão a essa vontade de potência, seja do modo do sonho apolíneo, seja a embriaguez dionisíaca a força da tragédia emana justamente da coexistência dessas duas forças em conjunto, atuando enquanto uma imagem própria da existência.

Voltando à fala de Jim Morrison no início desta incursão quando ele diz que aquilo que vê é trágico, pode-se dar razão a ele; é trágico pois é humano e o ser humano é trágico em seu modo de existir. As duas potências apolínea e dionisíaca representam nas imagens criadas por Nietzsche a civilização apolínea e o barbarismo dionisíaco, sendo modos de estetizar a existência elas não são verdades, elas são meios de lidar com uma verdade que não traz consigo os meios.

A política é o lugar para que as diversas forças que existem na condição humana possam tomar seu lugar, em um intenso jogo de hierarquizações e ordenamentos sociais que não cessa. Assim o artista possui um lugar todo especial na sociedade pois torna imaginável aquilo que antes estava oculto, torna visível o que os poderosos adorariam esconder. O  caos de onde as coisas surgem é tudo o que os poderosos querem evitar e tudo o que o povo deveria aspirar.

*Marcus Vinícius M. Pedroza Machado - Formado em Filosofia pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), ensaísta e professor.
*Valquiria Asche de Paula – formada em psicologia e mestranda em psicologia social [UFABC]



Bibliografia 

NIETZSCHE, Friedrich. Crepúsculo dos Ídolos. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

JASPERS, Karl. Introdução ao pensamento filosófico. Tradução de Leonidas Hegeberg e Octanny Silveira da Mota. São Paulo: Editora Cultrix, 2011.

DELEUZE, Gilles. A ilha deserta e outros texto, textos e entrevistas (1953-1974). Organização da edição brasileira e revisão técnica: Luiz B. L. Orlandi. São Paulo, editora Iluminuras, 2014.

DEPUIS-DÉRI, Francis. Émergence de la notion de "profilage politique": répression policière et mouvements sociaux au Québec. Revue Politique et Sociétés Volume 33, Numéro 3, 2014, p. 31–56.

SAFATLE, Vladimir, Grande Hortel Abismo. São Paulo. Martins Fontes, 2012.



segunda-feira, 17 de abril de 2017

JIm Morrion - Prefácio



Aceitei escrever algumas linhas celebrando a publicação do livro Jim Morrison, o poeta-xamã, do Marcel de Lima, sem saber, a priori, o quanto essa ideia era esplendorosa e punk ao mesmo tempo... Talvez meu ego, este imponderável personagem que me atormenta tanto, me dissesse: "Sim aceita... aceita mesmo sem saber... você adorava Jim Morrison!" E aceitei!

Ao percorrer a versão datilografada, fiquei entusiasmado com o arrojo e a originalidade do pensamento do Marcel ao intuir e estudar a relação entre a obra poética do Jim e a tradição xamânica, contando para tal com a participação e intervenção de deuses gregos, além de pensadores contemporâneos.

Trata-se de uma obra excepcional, importante, documentada com cuidado, fluida, e tão claramente redigida, página após página, para levar o leitor numa viagem cultural espetacular, iniciando-se na Sibéria, desde os primórdios da humanidade, até o palco de um dos maiores mitos do rock morto aos 27 anos: Jim Morrison!

Dionísio, Platão, Apolo, Lévi-Strauss, Mircea Eliade, Castaneda, Nietzsche, Kerouac, entre tantos outros, se sucedem para ilustrar o pensamento do escritor; não podia faltar a transcrição dos poemas em versão original e versão brasileira, para que a leitura resultasse numa festa completa, fascinante e em um prazer indescritível.

Que viagem incrível, Marcel, lhe felicito do fundo do meu coração, adorei o seu livro, posso recomendar com entusiasmo e finalmente confesso que fiquei preocupado em não ser uma pessoa suficientemente brilhante para escrever este prefácio... Você merecia alguém melhor para essa tarefa... Porém fui eu o convidado!


André Midani 

quarta-feira, 22 de março de 2017

Jim Morrison - a democracia plena


Os servos têm o poder”, diz Jim Morrison, juntando-se a precentores proeminentes, de Nietzsche, passando por John Rawls, Rousseau e La Boétie, dentre outros. O que fazem essas figuras agarradas ao cetro do poder, se são ignorantes, ressentidas e pueris? Dinheiro não lhes falta, dada a concupiscência, avareza e o anseio de serem “servidos por uma corte” de escravos. E mesmo assim encontramos quem sirva ou é forçado a servir a “lerdos e obesos generais” que “tornam-se obscenos pelo sangue jovem”.
Para Jim Morrison “os servos têm o poder” porque encontram aqueles que estão dispostos a abdicar de sua liberdade e se “deixam ser conduzidos” aos currais. Deixam-se ser enganados, manipulados. Mas é justamente a disponibilidade do homem à servidão voluntária o que justifica a escravidão, como disse La Boétie.
Os fortes [ou Lordes] não podem se guiar por regras morais em conformidade com os servos que têm o poder; os fortes [Lordes] devem estar comprometidos apenas com a própria vontade, com a sua própria singularidade. Disso depende toda a mudança na sociedade. São eles que têm o poder de impulsionar as mudanças.
Mas as sociedades, se querem a liberdade, não podem deixar de escolher viver numa forma coletiva que assegure a liberdade entre todos. Haveria alguma política com essa capacidade de quebrar essas correntes, de derrubar as cercanias desses currais que confinam as massas alienadas? Existe sim, mas somente na “democracia plena”, disse Jim Morrison. Mas uma “democracia plena” não se faz com a servidão voluntaria das pessoas, que vivem como gado, ruminando sua passividade vergonhosa, enquanto as mazelas proliferam por todo o tecido social, deixando milhões na pobreza, sem educação, saúde, moradia e trabalho.
“Wake up! Wake up!” Clama Jim Morrison. Mas o sono da alienação é difícil de acordar, quando as pessoas não querem despertar para a liberdade perdida.  
Valquiria Asche de Paula – formada em psicologia e mestranda em psicologia social

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Jim Morrison - a poesia como choque e redenção da história


Esse trabalho busca revelar através da poesia de James Douglas Morrison, mais conhecido por ter se tornado um mito como vocalista da banda norte-americana The Doors na década de sessenta, o dilema de seus conflitos de homem histórico e homem mitológico em sua busca trágica de atravessar para outro lado, ou seja, uma visão diferenciada da visão hegemônica da sociedade, em uma reconciliação como sujeito histórico. Trazemos à tona um pouco dos pensadores que refletem sobre o tempo, memória, mito, trágico e poesia. O que têm a nos dizer para delinearmos como o homem encara o fluxo ou interioridade desse tempo em sua consciência. A poesia de Jim Morrison se torna uma revelação desse instante em que a consciência encara o fluxo do tempo em sua interioridade e mostra sua continuidade em angustias e identidades. A revelação de um termo de transcendência passa a ser uma iluminação que se propõe à imanência, ou seja, ao eterno agora e o que ele em si pode nos revelar em sua duração. 

A realidade histórica se carrega e se constrói então de imagens com teor mitológico que perfilam oniricamente o caminhar e o desenrolar das ações, portanto a poesia imbuída de imagens alegóricas as capturam e as visualizam, quebrando padrões e implantando concepções utópicas, abrindo portas, podendo delinear um novo ethos. Dentro dessa concepção alegórica, para Walter Benjamim, o historiador tem o dom de despertar o escondido do passado com o agora da cognoscibilidade em uma correspondência imediata com a redenção da história. De acordo com Marcelo Marques o mito atua eticamente na existência humana pela sua força poética, tornando possível o humano, assim desmitificar Jim Morrison em sua poesia que revela suas angustias mostrando um rosto mais humano que buscou sua redenção através da poesia. 

Compreender essa busca em seu “instante do agora”, no cruzamento do presente e passado em sua rememorização poética do mundo é abrir portas para redenção da história, pois vislumbrou como relâmpago na noite escura a ligação de vivências do passado e do presente no eterno agora. Em sua poesia trágica, Jim Morrison revela seus olhares, conflitos, desmedidas e seu infortúnio que são contemporâneos, como em Baudelaire, Rimbaud e outros artistas, com o presente da sociedade moderna. A poesia como cruzamento de tempos torna-se o olho selvagem e a consciência trágica que desperta no instante do agora, possibilitando a redenção da continuidade de identidades e da angustia no coração da história.

Prof. DRÁULIO CARVALHO ASSIS – mestre em história pela UFG – Universidade Federal de Goiás, autor da tese: O mito e o trágico em Jim Morrison: a poesia como choque e redenção da história

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Seria the Doors uma banda trágica?



Em 1965, alguns rapazes, estudantes de Cinema, juntaram-se para montar uma banda. Surgia assim The Doors, uma das bandas mais cultuadas do século XX. Em parte, pelo talento e pela erudição de seus membros, e em parte pelo carisma e pelo magnetismo de seu líder. Os integrantes da banda  eram  adeptos da psicodelia (palavra formada por dois radicais gregos: psiké, que significa alma, e delos, que significa manifestação). A psicodelia diz respeito a perceber aquilo que não se consegue perceber comumente.
O nome da banda vem de Blake. William Blake era vidente, tinha visões com anjos e demônios e dizia prever o futuro; ele via mais que os outros. É muito interessante pensar Blake como in­fluência de Morrison, uma vez que ele pensa uma dinâmica muito parecida com a de Nietzsche para vislumbrar a verdade, a essência do mundo, mesmo que não use os mesmos termos: "Sem contrários não há evolução. Atração e Repulsão, Razão e Energia, Amor e Ódio são necessários à existência Humana. Destes contrários nasce aquilo que o religioso denomina Bem & Mal. O Bem é o ativo que obedece a Razão. O Mal é o ativo que surge da Energia. Bem é Céu. Mal é Inferno". Para Blake, a "verdade" se organiza para o homem em uma tensão dos contrários, assim como para Nietzsche. O bem é necessário como algo que garante uma organização e emerge da razão, e o mal, como uma força incontrolável que emerge da própria natureza humana. Mais à frente no mesmo poema, Blake identi­ficará o mal com o corpo e o bem com a alma, assim como Nietzsche identifica o apolíneo com o indivíduo e o dionisíaco com o coletivo, ou o apolíneo com o sonho e o dionisíaco com a embriaguez; uma força que organiza e outra que irrompe. A vida é trágica. Nem apolínea nem dionisíaca, mas um equilíbrio entre essas forças; ou usando os termos de Blake, o homem não é nem bom nem mau, mas as duas coisas. O papel da Arte é tornar isso possível, ou seja, ver o mal, o terri­ficante sem que isso esmague o homem. Parafraseando Nietzsche, a Arte existe para que a vida se torne suportável. Tornar aquilo que é belo sublime ou, fazendo valer a frase de Blake uma vez mais, "se as portas da percepção se desvelassem, cada coisa apareceria ao homem como é, in­finita." (ou trágica), ou seja, cada coisa nos apareceria de um modo como não podemos dar conta, ou nos daríamos conta de que cada coisa que há não é a própria coisa, mas um recorte, uma perspectiva possível.
A VIDA NÃO É NEM APOLÍNEA NEM DIONISÍACA, MAS UM EQUILÍBRIO ENTRE ESSAS FORÇAS; USANDO OS TERMOS DE BLAKE, O HOMEM NÃO É NEM BOM NEM MAU, MAS AS DUAS COISAS.
Pensar a banda ‑ e Doors como tendo um projeto de expandir a percepção de mundo a partir da música é um exercício reforçado ao se falar sobre o processo criativo da banda. Os relatos dos membros da banda falam de um processo caótico feito a partir da letra de Jim Morrison, que é originalmente poeta, e não músico. Se as letras em sua maioria eram de autoria de Jim, as melodias eram criações coletivas que modificavam o modo como a música era organizada; o importante era a música, e não cada um dos integrantes da banda. Nesse sentido, o processo de expansão da percepção pode ser associado a um processo dionisíaco de embriaguez e destruição individual. A partir do momento em que os indivíduos levam suas contribuições e as somam, criam algo que é diverso da soma das contribuições musicais. Outro aspecto da banda eram os improvisos, que ocorriam em gravações, shows ou durante a criação, incorporados ao corpo da música sem pestanejar. Novamente, contribuições individuais engolidas pelo todo, pela banda, pela música, que é por si só dionisíaca, pois é informe. Identi­fica-se, assim, um processo de criação da banda em que todos dão suas contribuições, as quais se desmancham na música.
Mas Dionísio necessita de máscaras para ser visto, e essa máscara é a imagem da banda de Rock'n'roll. Jovens, bonitos e charmosos: sem isso a música dionisíaca criada pelo grupo não apareceria, pois não teria corpo. E a banda ganhou corpo e rosto, uma encarnação: Jim Morrison.
JIM MORRISON: HERÓI?

Ser um astro de rock é um movimento em direção ao apolíneo, ao ser individual, é aquilo que há de mais próximo a um herói. Jim é um receptáculo para a verve dionisíaca da banda, seu ímpeto. Jim é a máscara apolínea que permite que a música se manifeste por meio dele. Se a música da banda é dionisíaca, Jim Morrison é a máscara apolínea que o ator trágico deve vestir para encarnar o herói. A relação entre a música e Jim Morrison procura conciliar o dionisíaco presente na poesia com o apolíneo exigido pelo show business. Jim Morrison não sabia tocar instrumento algum, então, para conseguir fazer música, ele necessitava dos outros membros da banda, principalmente de Ray Manzarek, o principal interlocutor de entre Jim e os outros integrantes dos Doors. Dentro da banda, Jim representava a força dionisíaca, enquanto os outros, a apolínea; se Jim trazia letras sem melodia, ou com uma melodia "capenga", os outros a organizavam e a tornavam música. Existia uma dinâmica Apolo-Dionísio no processo criativo da banda que se invertia no momento de apresentarem-se. Durante a criação, Jim era o Dionísio, que trazia uma torrente de força e vigor, e Ray, John e Krieger eram o Apolo, que dá forma ao que foi trazido, que transforma aquilo em algo possível de ser apresentado. Durante as apresentações, Jim era a máscara de Apolo que aparecia em primeiro plano, ao passo que os outros músicos pouco eram percebidos. Em qualquer gravação de apresentações da banda, todos os outros músicos eram esquecidos e a câmera só "lembrava" de Jim Morrison. Naquele momento,  e Doors era, enfim, uma banda trágica, na qual Apolo e Dionísio se fundiam em apenas um. Como foi declarado por Henry Rollins (1961), músico, autor e fã da banda: "O que me impressionou logo no começo foi a voz de Jim Morrison, o controle, a riqueza e como ele passava daquele controle e ternura para a ferocidade animalesca que ele tinha".

Morrison usava seu próprio rosto como máscara, porém criava outras máscaras como a de King Lizard ou a de Mr. Mojo Risin. O Rei Lagarto é um alter ego de Jim, a sua outra máscara. Jim escolhera essa imagem porque ela representava o que há de mais primevo dentro do homem. Mr. Mojo Risin, um anagrama de Jim Morrison, aparece na gravação de L.A. Woman, um momento de pura improvisação e espontaneidade. O que ele quis dizer exatamente? Não importa.
Sem a banda, Jim Morrison jamais poderia ter feito seu ímpeto dionisíaco tomar forma, e, sem Jim Morrison, os  e Doors jamais teriam sido aquilo que foram. Um dos grandes temas da banda é a morte, uma morte que reúne, que compatibiliza o homem com sua natureza. Uma morte dionisíaca garante a impermanência da existência, enquanto a vida apolínea deseja sua eternização. Exemplo interessante aparece nesse trecho de Light my Fire: "­ e time to hesitate is through/No time to wallow in the mire/Try now we can only lose/And our love become a funeral pyre/Come on baby, light my /Come on baby, light my /Try to set the night on ‑ re, yeah". Sobre esses versos, Rob Krieger diz: "Jim escreveu o segundo verso sobre a pira funerária. E eu disse: Jim porque insiste em falar da morte? E ele disse: não cara, é perfeito. Tem a parte do amor e, depois, a parte da morte. E ele tinha razão". ­ e end é outra música emblemática que, em seus versos, dá conta de uma visão terrificante sobre a morte: "­ This is the end/Beautiful friend/­ is is the end/My only friend, the end/Of our elaborate plans, the end/Of everything that stands, the end/ No safety or surprise, the end/I'll never look into your eyes again/Can you picture what will be/So limitless and free/ Desperately in need of some stranger's hand/In a desperate land?". Meu único amigo, o fim lembra perfeitamente a sentença de Sileno, servo de Dionísio, dada ao Rei Midas. Quando este pergunta a Sileno qual das coisas era a melhor e mais preferível ao homem, recebe como resposta: não existir, mas, agora que existe, morrer o quanto antes. É o destino de todos. Essa verdade terrível atormenta o homem e é na luta contra esse 'fim' que a tragédia se estrutura. A vida eterna apolínea e a desintegração dionisíaca. "Father?", "yes, son", "I want to kill you/Mother I want to fuck you". Se existia alguma dúvida sobre se havia tragédia em Jim, ele convida Édipo a esclarecer.
Este é o fim
Belo amigo
Este é o fim
Meu único amigo, o fim
Dos nossos elaborados planos, o fim
De tudo que resta, o fim
Sem salvação ou surpresa, o fim
Eu nunca olharei em seus olhos de novo
Você pode imaginar o que será?
Tão sem limites e livre
Desesperadamente precisando de alguma mão estranha


ARISTÓTELES. A poética clássica. São Paulo: Pensamento-Cultrix, 2005.

BLAKE, W. O casamento do céu e do inferno. São Paulo: L&PM, 2007.

EURÍPEDES. As bacantes. São Paulo: Hedra: 2010.

MACHADO, R. O nascimento do trágico de Schiller a Nietzsche. Rio de Janeiro: Zahar, 2006.

NIETZSCHE, F. A origem da tragédia. São Paulo: Centauro, 2004.
____________. A visão dionisíaca do mundo. São Paulo: Martins Fontes, 2010.



Marcus Vinícius Monteiro Pedroza Machado - Formado em Filosofia pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e professor.


terça-feira, 28 de julho de 2015

Jim Morrison - a vontade de potência


Jim Morrison, dotado de ambições titânicas e de uma forte necessidade de transcendência, viveu para exprimir  a sua vontade de potência. A sua ação levava-o a questionar a passividade das pessoas, a subserviência às autoridades, sejam elas quais forem, e quis causar a ruína de todas as leis, criando um círculo mágico mais elevado, entenda-se transcendente, pretendendo a fundação de um novo reino. No seu impulso heróico em direção à universalidade, na tentativa de ultrapassar a barreira da individuação, parecia sentir, como está escrito no Nascimento da Tragédia, “a natureza gemer com a repartição da individuação”. A lenda transgride, perece em Paris e revela-se trágica.

Numa busca metafísica até ao desconhecido, mas queria levar o público consigo, no seu pensar, para um reino melhor, para um lugar ideal.

Os padrões pelos quais a sua arte deve ser avaliada são ancestrais e mais profundos. Ali “o homem diviniza-se, sente-se deus”, diz seu mestre Nietzsche.

Jim Morrison colocou máscaras ancestrais de deuses e titãs regressando aos primórdios. Imergiu no mundo das formas oníricas, para “concluir que existe uma profundidade anterior na contemplação das imagens dos sonhos”(Nietzsche: O Nascimento da Tragédia). Pois os sonhos, apesar de já esquecidos de sua ligação com a nossa ancestralidade, “tem importância análoga para a essência misteriosa da nossa natureza, para a intimidade de que somos a aparência exterior”, diz Nietzsche na Origem da Tragédia. É quando nos damos conta da abolição do tempo que surge, assim, por meio da imitação de arquétipos e da repetição de gestos paradigmáticos.

De fato, não importa como Jim Morrison morreu, apenas como viveu. Não estava procurando a morte, pois esta é nossa companheira o tempo todo, até que ela nos toca no ombro esquerdo (Carlos Castaneda – uma Estranha Realidade), mas sim saboreando intensamente o agora existencial. Ademias, como disse ele certa vez: “não existe morte”, (Ray Manzarek – light my fire, p. 125). Isto é, as coisas passam continuamente pela metamorfose, deixa de estar numa forma para estar em outra, mas continua sendo o mesmo (Carlos Castaneda).

Jim Morrison viveu com o objetivo que o nascimento propõe: descobrir-se a si próprio, sua vontade de potencia, sua força e seu potencial. Ele fê-lo. 

Artigo de Pedro Paulo Lévy - formado em Letras pela UFU (A Universidade Federal de Uberlândia)

domingo, 7 de junho de 2015

Jim Morrison - a encruzilhada e as vias da liberdade


Wake up! Cavaleiros da tempestade chegaram para escancarar as portas, arrancá-las das dobradiças, reduzí-las a pó. A energia poética, primordial, comprometida, circulou pelos centros nervosos, percorreu as mentes e os espíritos, os corpos flutuaram como véus imaculados, animados por uma onda intensa e mágica, à espera do sol, do amor novo, do amor vivo, percorrendo as vias que levam à liberdade. Imóveis, na zona mais escura do cinema, somos todos «voyeurs» e projetamo-nos nas personagens, nos desertos, nos lagartos, nas auto-estradas, encontramos por fim na encruzilhada, lugar onde todos têm seus encontros marcados com as nossas infindáveis decisões: que caminho seguir?

Sabemos que além do nosso horizonte existe outra dimensão, o mistério ultrapassa a nossa compreensão, o impossível seduz. O yoga, sempre o yoga. O xadrez ronda a perfeição, o yoga é eterno e constante na sua busca da luz, nada mais importa, todo o movimento é um gesto de passagem imortalizado — quero consumir-me agora em toda a minha plenitude, extinguir-me no êxtase absoluto, regressar ao corpo donde vim. Xamã vidente, índio de olhar profundo como a noite, homem em transe, animal que ritualiza para descobrir os mistérios da vida no reverso da iniciação da morte.

Tenho a idade que tenho e quero estar na cidade dos possessos, dançar, fazer amor e erguer um novo campanário, beber o vinho que nos foi prometido, quero o mundo e quero-o agora! O mundo em chamas... Vocês tiveram uma colossal opinião pública, uma Califórnia florida a dançar, políticos e generais a assistirem à derrota pela TV, tiveram Woodstock. Nós tivemos % Mouros a iluminar um país há demasiado tempo cinzento e apático e um grupo de capitães com audácia, tomates e cravos. Devolveram-nos a nós e dançamos com o volume no máximo.

Segue-me, vem incendiar os caminhos com o fogo da dança que trazemos nos nossos pés; vamos correr, abrir para o outro lado! Édipo nos espera no limiar da auto-estrada, Antígona e as Bacantes organizaram um festim em nossa honra.  Vamos violar, saquear, santificar o anfiteatro — Genet, Poe, Blake e Huxley dançam os Sátiros, é um sacrifício ritual, o festim dos inocentes, a catarse de Nietzsche e Brecht advertem as novas gerações para o recrudescer do fascismo. Shiva lembra-nos que é preciso destruir para renascer. O mundo em chamas.  

Isto não é o fim, meus irmãos, as portas estão por todos os lados, nos palácios ministérios, nos teatros, nas prisões, nos santuários...  É entrar, meus senhores, é entrar se se têm coragem! Sair bem,  é só para quem souber seguir o fio de Ariadne.

— Estás do outro lado, finalmente, com outros cavaleiros, esqueceste a tempestade... Havia uma mulher, não, havia muitas mulheres; houve cidades, muitas cidades; houve Fogo. Um fogo na praia, tocado pelo vento do Pacífico, e houve a Vontade. A Vontade disse diz, e tu disseste. A Vontade disse canta, e tu cantaste. A Vontade disse grita, e tu gritaste. Foste então senhor do templo, rei lagarto. Até que a Vontade chamou-te de volta ao reverso da vida. A passagem estreita se abriu. Entraste e encontrou a eternidade. Outras folhas juntam-se as primeiras, engrossam o monte, que mais forte rodopia e se afasta trauteando — isto era o que se dizia como o Fim, meu solitário amigo, o Fim, mas é só mais um começo.

Artigo de Jorge de Palma e
                Ana Welt

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